Blitz Cultural

Funk: Furacão 2000 (e antes disso)

São mais do que comuns, tratando-se de funk, comentários como “todos os funkeiros deveriam morrer”. Muitas pessoas que se dizem intelectuais e estudiosas defendem o extermínio do funk, devido às letras em sua grande parte relacionadas a sexo. Mas o funk nem sempre foi assim. Inicialmente, as letras falavam sobre drogas, armas e a vida nas favelas, que era o ambiente dos MCs e do público a que o funk atendia na época (anos 80 e 90). Ainda assim, havia exceções que não possuíam letras com temáticas eróticas como, por exemplo, a dupla Claudinho & Buchecha.

O funk é um estilo musical que surgiu na metade da década de 1960, a partir da soul music, tendo uma batida mais pronunciada e algumas influências do R&B, rock e da música psicodélica. Sim, no início o estilo era considerado indecente, pois a palavra “funk” tem conotações sexuais do inglês. E, por possuir um ritmo mais lento, dançante e solto, acabou incorporando a indecência. Mas o funk só passou a ser considerado um ritmo diferenciado a partir de James Brown, que forneceu um vasto material para o go-go, subgênero do funk. Se ouvir com atenção pelo menos os três primeiros minutos do vídeo, é possível notar a influência de James Brown em alguns funks mais atuais, como o hit de 2004, Malha Funk.

Na década de 70, o gênero sofreu ainda mais alterações. Neste período, surgiu um funk mais pesado, influenciado pela psicodelia dos outros gêneros musicais da época, dando origem ao subgênero chamado P-Funk. Nessa nova fase, surgiram renomadas bandas como B.T. Express, Commodores, Earth Wind & Fire, War, Lakeside, Brass Construction, Kool & The Gang e Cameo. O último grupo citado (composto por Larry Blackmon, Aaron Mills, Charlie Singleton, Tomi Jenkins e Jonathan Moffett), ficou famoso pelo ritmo forte e pelas melodias marcantes. Uma das músicas do grupo, Word Up, inclusive, foi regravada pela banda de nu metal KoRn, de Bakersfield, na Califórnia.

Nos anos 80, porém, devido ao apelo extremamente comercial das músicas de sucesso na época (algo que, de certa forma, se mantém até hoje), o funk se partiu em uma infinidade de subgêneros, de acordo com o gosto do ouvinte. Os estilos rap, hip-hop e brank, muito apreciados como parte do que se costuma chamar de “cultura black”, são derivados do funk. E esses estilos ganhavam muita força nos Estados Unidos por causa de bandas como Sugarhill Gang e Soulsonic Force. No fim da mesma década, ainda surgiu a house music, que (pasmem) também é um derivado do funk, que consiste na mistura do funk tradicional com samplers e efeitos sonoros eletrônicos. Na mesma época, ainda mais alterações foram feitas, mas puxando um pouco para o lado do metal, com a fusão de guitarras distorcidas de heavy-metal e a batida original do funk, difundida por bandas como (pasmem novamente) Red Hot Chili Peppers.

Agora, finalmente chegando no funk carioca, ele surgiu de uma mistura do funk dos anos 1980 com um ritmo novo vindo da Flórida, o Miami Bass, com músicas erotizadas que consistiam em batidas mais rápidas. Somente depois de 1989 que os bailes funk começaram a atrair muitas pessoas, mas nessa época ainda tratavam apenas da visão que os MCs tinham da vida. Um exemplo disso é o Rap da Felicidade, dos Mcs Cidinho e Doca, hit dos anos 90.

Dos anos 2000 em diante que começou o funk com letras com erotismo mais evidente, e, a partir de 2005, beirando a pornografia. Esta nova fase do ritmo, descrita por alguns como o new funk, se tornou sucesso em todo o país e conquistou lugares antes dominados por outros ritmos, como o axé. Assim, junto com as letras, a dança do funk começou a ser diretamente associada à sexualidade, com roupas, movimentos e gestos insinuantes.

Ou seja, apesar de hoje em dia, muitas letras de funk consistirem em referências sexuais, esse é apenas um subgênero. Assim como o tão popular sertanejo universitário é do sertanejo de raiz. O que hoje é o funk é o resultado de um longo processo de transformação do estilo. James Brown não tem seu trabalho desqualificado por ter contribuído para a formação do gênero, assim como bandas como KoRn e Red Hot Chilli Peppers não são piores por terem derivado do mesmo estilo que, por exemplo, o Mc Créu. Todos os subgêneros são manifestações culturais resultantes do contexto socioeconômico e cultural tanto dos produtores quanto do público consumidor das músicas.

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This entry was posted on February 14, 2013 by .
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